quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

ode que não foi


Marília era comum.
Nasceu em uma família morna no interior do Rio de Janeiro e se mudou pra cidade quando ainda tinha dente de leite. Vivia uma fase de pseudo liberdade pós carteira de motorista e naquela terça chuvosa acordou meio barro - meio tijolo e resolveu sair de casa sem dar bom dia.

Do outro lado da cidade, Jorge que vinha de família cética e leitora de poesia de jornal de domingo, experimentava uma fase meio lobo. Deixou a barba crescer e seus cabelos estavam um pouco mais animados como se quisesse realçar um cheiro natural de testoterona. Mas não foi até aquela terça chuvosa no Starbucks de Ipanema que Jorge pode reparar o olfato sensível de certa moça praquela imposição de macheza toda.

Marília se ocupava de decidir se pediria leite de vanila no café ou não e sentiu uma vontade súbita de olhar pra trás. Jorge estava ali encarando sua nuca e agora surpreso por ser pego em flagra ficou inquieto sem saber o que fazer com sua curiosidade. Marília não entendeu a reação daquele homem e tornou a olhar pra trás em busca de pistas. Encaram-se desavergonhadamente por 3 segundos e a crítica os posicionou de volta na fila. Jorge sentiu o cheiro que vinha do cabelo loiro de Marília. Nunca se atraia por loiras, são sempre tão aguadas, mas dessa vez se pegou com vontade de enfiar o nariz naquelas mexas amareladas. Se inclinou de leve num ato corajoso. "Madeira", pensou. Marília então passou a mão pelo cabelo e esbarrou com o nariz de Jorge quase descansado ali.

- Desculpa!, disse Jorge constrangidíssimo. Desculpas, eu não... eu ...foi mal.

Marília observou a cara de pau daquele homem barbudo e ficou surpresa com sua falta de susto. Voltou-se pra frente e deu um passo pra trás - em um ato mais abusado que corajoso- encaixando sua nuca no rosto de Jorge, que recebeu aquele passo como uma permissão sincera, não sentiu mais culpa ou constrangimento, agora só respirava fundo.

- MARÍLIA TALL CAFÉ VANILA! gritou a atendente.

Marília buscou seu pedido, sentou-se em uma poltrona confortável, puxou um livro pra inglês ver e esperou alguma coisa. Jorge foi o próximo e além do café habitual levou um muffin de goiabada para viagem. Não se sentaria ali, iria embora com pressa atrasado para algum momento importante, uma reunião talvez.
Passou pela poltrona e já na janela do lado de fora a olhou novamente. Marília sentava com a coluna ereta quase tensa e aquela última troca de olhares deixaria um incômodo. Jorge seguiu seu caminho de forma automática e agora quem se inclinava era Marília, amassada no vidro da janela ainda pode vê-lo arrancar pela Farme de Amoedo em um Fox vermelho.

Tempos depois Marília já não tinha a lembrança do rosto de Jorge. Agora era pedagoga, dava aula pra crianças em fase de alfabetização, vivia cheirando a trakinas e com massinha de modelar embaixo das unhas. Namorou um rapaz chamado Felipe por uns meses e sem se perceber pedia que ele deixasse a barba crescer com frequencia.

Em uma noite de quinta, por insistência das amigas, saiu para beber em um bar no Baixo Botafogo. Não era de seu costume, não quebrava a rotina com facilidade. Marília não pode evitar o descontrole alcólico e acordou na caçamba de uma D-20 cabine simples quente de sol, com a calcinha pelos tornozelos no aterro do Flamengo. Sua bolsa estava ali com seus pertences e segundo depoimentos de uma amiga, Marília saiu de carona com o magrelo playboy da mesa ao lado por livre e espontânea vontade. Com o cabelo em desalinho e uma ressaca moral fortíssima, Marília calçou o sapato e foi embora sem conferir se havia alguém na cabine.

Caminhando embaixo de sol, Marília sentiu sua vida encolher. "Um passo pra trás", pensou exigente e ao quase ser atropelada por um Fox vermelho lembrou que daquela terça chuvosa em diante passara a  procurar o rosto esquecido de Jorge dentro de todos os Foxes vermelhos com/sem bagageiro que cruzavam seu caminho. Incondicionalmente, era quase uma superstição.
Sem quebrar protocolo algum, Marília não abriu exceção praquela manhã torta e ao atravessar fora do sinal na Almirante Tamandaré distraída em busca de um táxi vazio se perdeu em idéias inférteis olhando através do para brisa do seu algoz, que conseguiu frear a tempo. Estava tão distante de si que não pode reparar o Siena branco que vinha atrás com Jorge no volante já sem barba e aborrecido por não lembrar se aquela loira amadeirada do Starbucks tinha uma ou duas pintas no pescoço.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

não era amor, era gastrite


Era um daqueles dias chatos quando a solidão densifica o ar e a neblina matinal te reafirma incapaz de alguma coisa. Saí pra tomar um café melancólico com uma amiga alegrinha pra dispersar o mau humor.

Fomos para a cobal do Humaitá farejando cafeína e no caminho só pude sentir o cheiro das recém famílias;  jovens casais com seus bebês empanados em talco, fraldas, maria-chiquinhas e frozen iogurte.
Sentamos em um café empestiado deles. O casal da varanda estava num dos primeiros encontros; o de namorados se lambuzava de brownie; a grávida era quase carregada no colo. Uma familinha no fundo da loja encontrou uma familinha amiga e sentaram-se juntos tipo amiguinhos. Mães de um lado e pais do outro automaticamente. A filha de um deles deixava um rastro de biscoito maizena mastigado pelo chão enquanto a mãe não decidia se desenvolvia o papo sobre alimentação na primeira infância ou se repreendia o caminho ruminado pela transgressora de 2 anos. "Ai ai ais" enquanto a pequena lambia a vitrine gelada de tortas.

Eu observava quieta e aquilo reverberava em mim como um chamado corra para a luz, Caroline. Negócio de hormônio feminino, relógio biológico, colesterol alto sei lá que merda é essa.
Virei o expresso açucarado desejando tequila e um arrepio correu por minha espinha, alojou-se no estomago tipo recém borboletas experimentando suas asas pela primeira vez. Era tanta doçura me cercando que me senti enjoada.
Paguei meu café, deixei a amiga naquele ambiente hostil e fui para o ponto de ônibus em silêncio pensando sobre o dia, melancolia, maizena, amor, eu e ele, liberdade. Calor de trânsito, fim de tarde engarrafada, vontade de vento na cara pra não socar alguém. "Queria um hobbit de estimação pra me transportar alternativamente "

Quando o ônibus chegou a cabine mais parecia um quarto de motel. Luz baixa com um fio de led vermelho contornando o painel do volante, uma ex-morena sentada no motor com as pernas cruzadas em direção ao motorista segurava uma latinha de Itaipava, pagodinho comendo solto. Sim, o piloto estava em um date. Parei abismada na escada para entender aquela cena e o frisson na espinha se repetiu.
"Lerê lerê lerê lê lerê lerê" . Putaquemepariu.
Comecei a ver um deboche ridículo naquelas situações todas, já tava um saco. Queria chegar logo em casa pra acabar com o desconforto gerado por aquele amor solto na atmosfera. Atravessei a catraca meio carente meio puta e segui viagem cada vez mais muda, enjoada, impaciente.

Desci na esquina de casa, senti mais um arrepio e dessa vez ânsia de vômito. Corri por rua portão corredor em um só folego até o banheiro.

Não era amor, era gastrite. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

vácuo




Outro dia organizei os travesseiros da minha cama no formato do seu corpo pra criar a falsa sensação da sua presença. Quase pude sentir seu cheiro de cansaço melado, seu gosto de suor, seu olhar tranquilo.
Pela manhã senti pena da minha fé.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Homem corajoso

Eu achei que você fosse um homem corajoso com esse tamanho super e essa audácia estampada. Não foi outro dia que quase arranjou uma briga barulhenta na rua por conta de um decote em V? Me vem você cheio de -ei senhor, não olha assim pra minha mulher de decote em V- e olha pra trás pra exibir a minha honra defendida. 
Eu fui pra casa e você não quis defender além da honra, a rotina. Me esqueceu largada, pôs-me solta e voei pássaro.
Você me enganou fazendo acreditar que era homem corajoso mas era camuflagem desbotada carapuça dos vaidosos lutadores de "en-dôs".

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Casa desarrumada. A sujeira no chão da sala é constante. Roupas, meias, bolas de papel amassadas... A caixa de areia do gato está lotada de fezes. Do outro lado da cozinha, ração espalhada pelo chão. "Esse gato não é mole..." ela pensa ao chegar em casa, já tropeçando no gato que se esfrega em seus tornozelos dificultando o andar por aquele espremido espaço. Ela repara que a pilha de louça aumentou. Suspira, cansada só por pensar no trabalho que ainda irá ter. No banheiro, o chuveiro está ligado e de lá vem um "Oi, amor!" cotidiano.
- Não deu pra lavar a louça, não briga comigo!
Ela vai até o banheiro e por entre as cortinas do chuveiro eles se beijam. Seu nariz, bochechas, queixo e lábios se molham através dos dele e algumas gotas respingadas nos seus olhos fazem a maquiagem cansada escorrer como uma lágrima negra face abaixo. Ela senta no sofá, acende a ponta do baseado que está no cinzeiro e ali fica, imóvel por quase cinco minutos.
Era como se ela soubesse o que estava por vir...
Fechou os olhos. "Patacori ô Ogum..."
Por um instante ainda sentiu o chão tremer.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


Todo lugar que ela freqüenta há um indivíduo apaixonado por ela.
Tem um jeito lânguido que suga à vapores. Há vapores também, ela causa vapor. É quente, meio apimentada no suor,  desenrola desengonçadamente.

Ela está debruçada na janela, pensativa.  Não sabe como resolver um assunto do coração e isso a tira do eixo. Ela sente necessidade de resolver as coisas na base da lógica. Coisa chata essa. Ela é chata. E no momento ela também não está lidando muito bem com os conflitos cotidianos. Não sabe sair das situações e sempre se constrange. Fala muito.

Estava desesperada, necessitando abraçar pessoas boas e dizer sentimentos sinceros, por isso recorreu:

“Maria Mulambo, você cuida do coração de todos, cuida do meu também...”

Deu mais um tapa antes de dormir. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

8

Doce miséria essa tal de cisma...
Como a sua figura me toma com tamanha força? Não me lembro de ter permitido tal acesso. Antes de dormir, ao acordar, em horas descuidosas - e como é bom ser descuidoso...- 
Outro dia, em um lapso tenro de descuido, me vi cruzando com você na praia e você era só atenção. Algo irradiava de dentro para fora de mim impossível de resistir e você tampouco conseguiria. Assim a conversa seguia com toques, charmes, olhares. Conversávamos, nos identificávamos, nos uníamos. Você mexia no meu cabelo, como sempre e eu sorria excessivamente para que me julgasse perfeita. E quando nos beijávamos parecia que a galáxia havia resolvido brincar de "estátua"... Nada se movia além de nós.

Um lapso. Um momento irresponsável do meu dia.
... e as vezes esses lapsos se estendem e viram lapsos tortuosos e torturantes. Malditos. E ninguém quer ser maldito... Então eu tento pensar em coisas cotidianas, e realmente me ocupo delas enquanto aguardo ansiosa a próxima distração do raciocínio.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

João Bobo

E assim me despeço de suas atenções, suas mãos carinhosas, suas sardas...
Não as quero mais, não as posso mais querer. Se é preciso escolher entre mim e você, escolho-me inteira. Não quero ser mais metade a esperar metade.
Essa orgia de olhares precisa cessar. Te proíbo de me despir com seus olhos. Me incita a querer ficar nua para que me olhe.
Meu corpo não concebe mais as ordens de minhas idéias. Não quero mais te ver porque apenas te olhar se tornou agressão para meu cotidiano. O pulso descompassa, e me larga assim, descompassada.
O sangue congela, a vista embaça.
Não posso mais...
Preciso do meu pulso, sangue e vista para sobreviver... Te esqueço para não morrer.
Então, por escolher a vida, encerro nossa conexão astrologicamente mapeada.
Ignorarei minhas intuições, não o visitarei mais à noite, seu cheiro não acordará no meu travesseiro. Peço que recolha seus sentidos para que não me mande mensagens por telepatia.
As recebo o tempo todo, desgovernadas. E faça o favor de colocar meu eixo no lugar, exatamente como o encontrou.
Te proíbo também de pensar em mim.
Não é mais permitido desenhar-me em seus pensamentos. Chega.
Migalhas não são banquete. São migalhas.
Digo-te adeus, João Bobo.
Dá aflição querer fazer uma coisa e não conseguir...

domingo, 23 de outubro de 2011

Todas as noites, antes de dormir
acendo umas velas e assisto-as as queimar
até quase pegar no sono...
Necessito contemplar esse fogo,
me alimento dele.
Ultimamente tenho acendido velas.
Serão pecados?
Espero que sim.
Pois entre pecar e não pecar
sou filha de Baco
Me entrego facilmente a ele.
Quase não há resistência como há insistência,
tendência.
E não precisam me perdoar:
nasci absolvida.  

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Bonita Mentira


Olhos doces, mãos pelúcia
Meu querer é vontade ansiosa
De te ver me querendo

Beijo veludo, voz camurça
Palavra formada que diz e evoca
Choro aguado sangrento

Sonhos de utopias divinas
De vidas ainda não vividas
Dizem-me com orgulho turquesa
Que minha posse é maldita

Ai de mim, ao ouvir tal certeza
Certeza virgem em tom de palpite
E melam teu coração de cereja
Com idéia ansiosa de amor livre

Ai de mim, um cubo de açúcar
Acostumado com ângulo esquina
Embebido no teu livre melado
Desfiz-me toda em redonda malícia

Quis vestir sedutora camisa
Correr para alcançar teu velho passo
Mas logo me veio carapuça caqui
E espremeu meu andar cansado

E meus pobres olhos daltônicos
Teu melado amargo cegou
Tua bonita mentira é colorida
O que era doce se acabou